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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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sábado, 11 de setembro de 2010

História, narrativa e linguagens: uma filosofia da história.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 11/09, 2010, p.01-17.


Quando falamos em narrativa histórica, estamos diante de duas questões distintas que se cruzam.


Primeiro a leitura das reminiscências do passado pelos historiadores, construídas em narrativas que comunicam o entendimento de cada qual, sustentado através das fontes.

Depois, os vestígios deixados pelos homens que viveram no passado e que, sendo relatos, também constituem narrativas.

O primeiro aspecto pode ser vislumbrado, a partir da afirmação clássica de Paul Veyne, de que, a história não é nada além de uma narrativa de acontecimentos tidos como verdadeiros.

Portanto, constitui uma resposta as nossas indagações, refletindo as questões que se colocam dentro de um tempo histórico especifico.

O que se entende por história constitui uma narrativa construída pelo historiador.

Neste sentido, na década de 1960, Jacques Le Goff tentou definir o trabalho do historiador, afirmando que consistia em estabelecer acontecimentos, bastando aplicar aos documentos um método para fazer os fatos aparecerem.

O historiador não produz analogias aleatórias a partir de imagens que forma de frases soltas nos documentos, não junta grosseiramente colocações que possam sustentar sua opinião pessoal e não constrói imagens do passado, calcadas em suas próprias lembranças ou em concordância com sua visão do presente.

Ele carecendo do domínio de técnicas que permitam, constantemente, retificar a história, substituindo, como pretenderam alguns, os traços falsos pelos exatos.

No entanto, como afirmou Charles Beard, o historiador não é um observador do passado que permanece fora de seu próprio tempo, não pode vê-lo objetivamente, como o químico vê seus tubos de ensaio, deve ver a realidade por intermédio da documentação, seu único recurso.

Assim, o historiador termina construindo sua narrativa do passado sempre particularizada, pois é uma visão de um individuo, em cima de outras narrativas que constituem sua fonte de interpretação.

Como lembrou Michel Foucault, a história, na sua forma tradicional, dedica-se a memorizar os monumentos do passado, representados pelos documentos, fazendo alguns de seus traços tornarem-se pertinentes para o presente.

O historiador termina construindo uma narrativa de segunda mão de alguns aspectos daquilo que já passou.

Ao mesmo tempo, não sendo um individuo isento de influencias as mais diversas, o historiador é fruto de seu próprio tempo.

Ele é contaminado por uma visão particularizada do passado, isto, já ao tentar utilizar técnicas que permitam alcançar a objetividade cientifica na leitura das narrativas que constituem suas fontes, visto que estão baseadas em um contexto histórico que espelha as mais diversas tendências conceituais desenvolvidas ao longo da história da história.

Sendo assim, antes de mais nada, talvez fosse interessante repensar o próprio conceito de história.


Repensando o conceito de história.

A partir do século XIX, repensar, conceitualmente, a história tornou-se absolutamente necessário, já que, de acordo com este conceito, a narrativa do passado torna-se também diferenciada, obviamente, a partir dos pressupostos em que se insere.

Uma definição contemporânea de senso comum, afirmaria que a história é uma ciência que estuda o passado, analisando as transformações, para entender o presente.

Ao resgatar o passado, a história tentaria conferir sentido ao presente, ajudando a transformar a realidade a partir de sua própria compreensão, podendo até mesmo guiar ao futuro.

Todavia, uma análise mais detalhada demonstra que o conceito de história comporta múltiplas definições e leituras do passado, portanto diferentes narrativas, cada qual adequada ao seu conjunto teórico, de modo que não é possível falar de uma história singular, já que, ao invés de uma teoria da história teríamos múltiplas teorias da história.

Neste sentido, como lembrou Hayden Write, a história poderia estar circunscrita entre uma narrativa teórica e uma interpretação literária e até certo ponto mítica do passado, definida, inclusive, tanto como conhecimento cientifico como representação fantasiosa.

Para atingir o cerne desta discussão e avançar percorrendo a pluralidade de narrativas da história, é necessário penetrar no desenvolvimento da historiografia na multiplicidade de narrativas para um mesmo fato, sempre contado de maneiras diferentes.

Conforme o entendimento que se tem do que seria a história, é preciso tentar entender a evolução do seu conceito, fomentado, por sua vez, pela discussão do que é o conhecimento histórico.


O inicio da história da história.

Ao longo da história da história, a concepção da palavra história possuiu significados diferentes.

Na antiguidade, Sócrates circunscreveu a história ao fato de conhecer, enquanto Aristóteles dizia ser uma coletânea de fatos.

Até este momento, a questão da narrativa esteve circunscrita a dar a conhecer aos contemporâneos aquilo que foi e não era mais, mas que, de certa forma, servia a legitimação do presente.


Era um passado que deveria ser entendido pelas fonte, tanto os depoimentos verídicos, como os relatos fantasiosos de segunda mão, mesclados a explicação mitológica que, inclusive, contribuíam para a mitificação deste passado.


A palavra história só adquiriu um sentido mais próximo do convencionado pelo senso comum no século VI a.C, quando Heródoto, considerado o pai da história, passou a empregá-la como sinônimo de investigação.

Ao escrever sua História, tentando entender como os persas haviam conseguido construir um Império ao término da guerra contra os gregos, segundo Jean-Pierre Vernat, em As origens do pensamento grego, Heródoto terminou contribuindo para alterar a lógica do pensamento humano.

Em um momento em que o homem ainda recorria aos mitos para fornecer explicações divinas para aquilo que não podia compreender, Heródoto deslocou a lógica de pensamento da mitologia para a razão.

A narrativa histórica, antes muito mais próxima da ficção do que da realidade, passou a denotar, até certo ponto, uma preocupação com sua base de fundamentação.

A narrativa passou também a demonstrar preocupação com seu caráter investigativo.

Neste inicio, história e filosofia se confundiam, tinham o mesmo objetivo, entender a realidade através da observação, tendo uma mesma característica narrativa, compondo enredos sistêmicos, fechados em si mesmos, pretendendo atingir a verdade.

Até o século XVIII, as mais diversas ciências e a filosofia estavam embaralhadas, somente a partir do racionalismo de Descartes, com a publicação de seu Discurso do Método, um século antes, o conhecimento começou a se especializar, indo na contramão do humanismo renascentista.

Os filósofos ilustrados, ao dividirem o conhecimento acumulado pela humanidade em diversos setores para compor a enciclopédia, conhecimento que havia se tornado vasto demais para ser contido apenas pela filosofia, sistematizando o saber, deram o empurrão para que a história pudesse surgir como unidade autônoma.

A história transformou-se em área distinta da filosofia, embora ainda não considerada uma ciência propriamente dita, a ponto de, no século XIX, alguns autores clamarem por uma filosofia da história, inaugurando, de certa forma, a historiografia.

Momento em que a história, conceitualmente, passou a ser definida como uma visão do passado, voltada para o progresso da humanidade e que, toda narrativa histórica, adquiriu um viés de rememoramento do passado humano voltado a demonstrar a evolução civilizacional.

A narrativa dos historiadores contemporâneos do iluminismo, demonstrando como havia evoluído a humanidade desde seus primórdios, procurava justificar a continuidade da evolução.

O iluminismo reacendeu a tradição da escola memorialista, com narrativas de caráter biográfico, algumas vezes em forma de diário com uma natureza quase confessional, outras em narrativa que oferecia a visão de um observador dos fatos, sempre com uma linguagem em um estilo que hoje chamaríamos de jornalístico.

Neste estilo, o ficcional e o verídico se confundiam, mas constitui, hoje, fonte riquíssima para a história do imaginário ou, em um sentido mais ampla e moderno, para a história cultural.


O positivismo e a escola metódica.

No século XIX, o positivismo histórico, inspirado por Comte, surgido em um cenário conturbado, marcado pela anarquia e a desordem causada pela crescente urbanização, pela aceleração do desenvolvimento industrial, pelo imperialismo e pelas lutas de classe.

Foi quando aconteceu uma nova modificação no conceito de história, a partir, igualmente, da contribuição da escola metódica.

Diante do contexto de sua época, a ciência da positividade pretendia encontrar, nas humanidades, as leis imutáveis da natureza, defendendo o conceito de ordem e progresso.


Na concepção de Comte, as idéias religiosas haviam perdido grande parte de sua força, desorganizando a sociedade.


Culpa, segundo ele, da filosofia negativa, representada pela Revolução Francesa e os doutores da guilhotina, com seu ideal de liberdade, igualdade e fraternidade, os quais tinham desestruturado as instituições sociais.

Comte havia herdado o conceito de filosofia negativa de Saint-Simon, considerado por muitos o verdadeiro pai da Sociologia, de quem havia sido secretário particular até um desentendimento intelectual.

Saint-Simon, um personagem curioso, defendia a industrialização como única forma de satisfazer as crescentes necessidades humanas, constituindo uma forma de obter riqueza e prosperidade, acabando com os conflitos sociais.

Propunha uma organização diferenciada, semelhante à observada no sistema feudal, baseada em uma elite dirigente formada por industriais, comerciantes e banqueiros, os novos senhores feudais, dispondo do suporte de um novo clero composto por cientistas.

Justamente, o ponto de discórdia entre Saint-Simon e Comte.

Para o último somente as instituições sociais poderiam regular as relações entre as classes, a despeito das ditas instituições serem controladas pela elite.

Absorvendo parcialmente as idéias de Saint-Simon, Comte fundou o que chamou inicialmente de física social, uma tentativa de criar uma nova ciência, calcada nas humanidades, semelhante à física ou a matemática, separando a filosofia e a economia política do conhecimento da realidade social.

O positivismo de Comte, voltamos a insistir, inspirou o surgimento da escola histórica positivista, uma corrente teórica francesa, muitas vezes confundida com a escola metódica de origem alemã.

O positivismo histórico procurava encontrar, no estudo da história, leis que regulassem o desenvolvimento humano, permitindo contextualizar os fatos do presente, originando uma atitude e uma narrativa presentista.

Já a escola metódica, encabeçado por Von Ranke, supervalorizava os documentos oficiais, afirmando que eles falavam por si, contendo tamanha clareza em sua narrativa do passado, que bastaria, ao historiador, localizar e transcrever, cabendo apenas tecer comentários.


Esta tendência nasceu no final do século XIX, em um contexto de formação da nacionalidade germânica e da crescente busca de elementos que fornecessem subsídios para a fundação de um Estado Nacional na Alemanha.


Por isto mesmo, defendia a idéia de objetividade no conhecimento histórico, embora a narrativa metódica seja carregada de frases de efeito e enredos que procuravam fomentar o nacionalismo, a partir de uma narrativa oficial dos fatos.

O positivismo, somado a escola metódica, ambos representantes típicos do sistema capitalista em plena fase de ascensão, fundidos, forjaram a concepção cientificista de história que seria dominante no século XIX.

Isto, a despeito de outras propostas teóricas coexistirem no mesmo período, haja vista o nascente marxismo e os estudos precursores da análise cultural de Michelet.

Conceitualmente, a história passou a ser considerar uma ciência, apesar desta afirmação constituir campo fértil de debate até hoje.

Seu ideal seria encontrar universalidades em fatos singulares, calcadas em documentos oficiais, tentando explicar o presente.

O que, na prática, transformou a análise histórica em uma narrativa dos fatos políticos e da vida das grandes personalidades, suscitando uma série de criticas que conduziam a outras propostas teóricas.


O marxismo.

Opondo-se ao conceito positivista de história, no inicio do século XX, muitos historiadores procuraram propostas teóricas alternativas, tendo como centro uma conceituação de história diferenciada.

A idéia era romper com as leis imutáveis e com a narrativa que servia de exemplo para disciplinar à ordem social, contrariando a postura metódica de abordagem dos documentos oficiais como as únicas fontes contendo a narrativa correta dos fatos, “livre de omissões e deturpações”.

As idéias desenvolvidas por Karl Marx e Friedrich Engels, no final do século XIX, terminaram sendo adotadas e transpostas para o contexto teórico da história, originando uma nova escola historiográfica, com um contexto narrativo, igualmente, diferenciado.

Uma vertente que levaria em consideração a preocupação em demonstrar que o capitalismo seria um acontecimento transitório, diante do aparecimento de uma classe revolucionária, para o surgimento de uma sociedade comunal, conforme a concepção teórica marxista.

Quando era jovem, na Alemanha, Marx foi testemunha ocular do crescimento da sociedade fabril, observando a acentuação da desigualdade, inclusive se envolvendo em conflitos políticos com o Estado que, depois de breve estada na França, forçaram a se exilar na Inglaterra, onde o contato com o sistema capitalista ampliaria os subsídios que permitiriam criticá-lo.

Para Marx, as mudanças sociais estariam estreitamente ligadas ao desenvolvimento do capitalismo, sistema de produção que já estaria presente em sistemas econômicos anteriores.

Neste sentido, os detentores de capital, chamados de capitalistas, proprietários dos meios de produção, formariam a classe dominante, utilizando a ideologia para controlar a massa de proletários.

Para analisar este contexto, Marx criou um sistema racional de interpretação da realidade, pensada em termos de movimento e mudança, marcada pelo determinismo econômico, conciliando a reflexão filosófica com a prática política.

O que originou uma gama tão ampla de interpretações e desdobramentos que o próprio Marx, antes de morrer, declarou ter certeza de que ele não era marxista.

Um destes desdobramentos foi o surgimento da escola historiográfica marxista, extremamente preocupada com as questões teóricas, visto que para Marx uma teoria não podia ser pensada sem correspondência com o contexto histórico, devendo encontrar suas raízes na realidade para transformá-la.

Esta característica, em especifico, criou desdobramentos também dentro da escola historiográfica marxista, tornando-a até certo ponto confusa.

Ito a despeito de duas características em comum presente na construção da narrativa de todas as orientações marxistas: a adoção da dialética e do materialismo histórico como foco central de análise, buscando alcançar os princípios marxistas.

Marx havia pegado emprestado o conceito de dialética de Hegel, o exame de tese, antítese e síntese, compondo uma espécie de dialogo consigo mesmo, o qual deveria estimular a prática revolucionária.

Apropriou-se igualmente do conceito de materialismo histórico de Feuerbach, tendência que partia da base econômica para explicar outros níveis de realidade, como a religião ou a política.

Mesclando tudo com as experiências dos socialistas utópicos franceses e as teorias econômicas dos ingleses, representadas por Adam Smith e David Ricardo.

Assim, construiu a base que serviria ao desenvolvimento de um novo conceito de narrativa histórica, adotada pela corrente historiográfica marxista.

A história foi transformada em uma concepção teórica direcionada a transformar a sociedade e conduzir a humanidade rumo à felicidade, uma ciência da prática revolucionária, através do estudo do passado.

Conceito que entrou em crise a partir do final do século XX, sendo questionado pela Escola da Annales, esfacelando-se em múltiplas analises particularizadas, embora seu arcabouço técnico e metodológico continue vivo, diluído em meio a outras tendências teóricas.


A escola de Annales.

A escola de Annales, um movimento que se originou a partir de uma revista acadêmica francesa, Annales: economia, sociedade e civilizações, alterou profundamente o panorama teórico e a forma de narrar a história.

A revista foi fundada em 1929 por Marc Bloch e Lucien Febvre, então professores na Universidade de Strasbourg.


Depois, em 1994, foi renomeada como Annales: história e ciências sociais.


O surgimento da escola de Annales está intimamente vinculado com esta publicação que terminou dando origem a uma nova tendência historiográfica que constituiu uma reação critica as concepções históricas do século XIX.

Notadamente rejeitou a ênfase positivista e metódica em política, diplomacia e guerras, assim como a abordagem economicista do marxismo.

Pretendia adotar uma abordagem sociológica, emprestada do grupo dos Anais Sociológicos da Universidade de Strasbourg, unindo o estudo da geografia, sociologia e história para entender os fatos e as mudanças históricas, dando especial atenção ao cotidiano.

Annales se propôs a problematizar a história, contrariando a coleção de fatos perpetuada pelas tendências dominantes no século XIX, tentando se isentar de ideologia, procedimento adotado pelo marxismo, embora esta tentativa seja passível de inúmeras criticas, já que o historiador, estando inserido em um tempo histórico, jamais conseguirá traçar uma análise imparcial.

Três gerações de historiadores se encarregaram de consolidar Annales, modificando sensivelmente a tendência.

Enquanto a geração de 1929, representada pelos chamados pais fundadores, enfatizou o cotidiano, fazendo uma análise interdisciplinar dos pequenos fatos do dia-a-dia para entender grandes questões de importância para o presente.

A segunda geração, a partir de 1940, representada por Fernand Braudel, optou por uma abordagem diferente, unindo a geografia com o materialismo histórico e a economia, fazendo uma analise parecida com a teorizada pelo marxismo, porém isenta do componente político ligado à defesa do socialismo e do ideal de transformação da sociedade.

Braudel, particularmente, além de ser considerado o grande propagador de Annales, aquele que tornaria a tendência conhecida fora da França; criou o conceito de longa, média e curta duração, o qual passaria a nortear os estudos históricos a partir da década de 1960, inspirando a micro-história.

Pegando conceitos emprestados da antropologia estruturalista de Claude Lévi-Strauss, Braudel propôs a construção de uma narrativa histórica mais ampla do que a tradicional, inaugurando, através do conceito de longa duração, o que chamou de história comparativa.

Uma concepção que se distingui da história comparada, uma vez que a comparativa está ligada a história de longa duração que estrutura e comanda as ações, enquanto a comparada não permite concluir qualquer regra tendencial.

Na realidade, Braudel trouxe para dentro da narrativa histórica mais que os dados seriais, a estatística, também a análise lingüística, a língua, enquanto estrutura que subordina características culturais e é por ela subordinada.

Elementos que já estavam presentes na primeira geração de Annales, mas que ficaram mais evidenciados na narrativa histórica a partir de Braudel, e que, na geração seguinte, continuou a progredir.

A terceira geração de Annales, iniciada na década de 1970, representada por Jacques Le Goff e Peter Burke, incluiu um novo componente, o estudo das mentalidades, o qual rivalizaria com a história cultural, unindo a história e sociologia com a psicologia e antropologia.

O que originou um desdobramento conhecido como Nova História, circunscrevendo a narrativa histórica às representações.

Cabe ressaltar lembrar que o objetivo central do conceito de representação seria trazer para o presente o ausente vivido e, dessa forma, poder interpretá-lo, tornando a apropriação.

Este conceito pertence à proposta da Nova História Cultural, a tentativa de decodificar a realidade do já vivido por meio das suas representações, desejando chegar àquelas formas pelas quais a humanidade expressou-se a si mesmo e o mundo.

Uma tendência que construiu uma narrativa que se opõem à aquela grandiosa tendo as civilizações como centro, uma reação a um estilo de história social que seguia o modelo da história econômica, empregando métodos quantitativos e generalizações.


História, Literatura e linguagem.

Comportando múltiplas definições, o conceito de história é também diversificado nas leituras e narrativas.

Cada concepção é adequada ao seu conjunto teórico, tornando impossível falar de uma história singular, já que, ao invés de uma teoria da história teríamos múltiplas teorias da história, cada qual com sua linguagem.

Neste sentido, como lembrou Hayden White, a história poderia ser definida como uma área situada entre uma narrativa teórica e uma interpretação literária e até certo ponto mítica do passado.

A memória, circunscrita ao saber histórico, não passaria, portanto, de uma seleção de fatos, uma construção do passado que espelha uma leitura particularizada do que foi preservado pelas fontes.

Neste sentido, seria também uma ficção de cunho literário, embora não deixe de ser uma narração de fatos verossímeis, expostos através de um estilo pessoal de narrativa.

A despeito da necessidade de um corpus documental que forneça sustentação à memória seletiva da história, para além do problema que engloba a veracidade das fontes, não se pode esquecer que o conhecimento histórico, para fazer-se inteligível, necessita fazer uso de uma narrativa.

Ao passo que não pode furtar-se de seu caráter literário para perpetuar sua mensagem junto ao público.

Ao mesmo tempo em que a história possui a obrigação de recordar o passado, tem um compromisso com o gosto popular para transformá-lo em memória.

Espelha o passado através de uma narração verídica, contudo, não passando de uma versão dos fatos, dentre várias outras possíveis, é uma ficção verossímil.

Tudo pode ter sido exatamente como reconstituído pelo pesquisador, como, ao inverso, não passar de uma narrativa fictícia construída pela imaginação daqueles que compuseram as fontes, ou ainda, um recorte específico que, descontextualizado, distorceu a realidade.

Para Hayden White, na passagem do estudo de um arquivo para a composição de um discurso e sua tradução escrita, os historiadores têm de empregar as mesmas estratégias da figuração lingüística.

Devem utilizar as técnicas dos escritores imaginativos para dotar o discurso de significados latentes, secundários ou conotativos, que requerem que a obra não seja só recebida como mensagem, mas lida como estrutura simbólica.

A memória espelhada pela história é sem dúvida um gênero literário, mas, paradoxalmente, nem por isto deixa de recordar aquilo que foi, dentro do contexto do agora, reivindicando seu caráter cientifico.

Em 1965, Antonio Candido de Mello e Sousa ressaltou que a função histórica ou social de uma obra depende de sua estrutura literária.

Qualquer que seja o gênero textual, a estrutura narrativa repousa sobre a organização formal de representações mentais, condicionadas pela sociedade em que foi escrita, espelhando um nível da realidade e um nível de elaboração da realidade.

Tanto a literatura como a história refletem a memória, a lembrança daquilo que foi, recordam o passado através de uma narração verossímil, construída com a ajuda da imaginação, servindo a uma releitura das questões do presente.

Mas existe uma diferença.

A literatura admite e valoriza seu aspecto fictício, reivindicando o poder da imaginação na interação entre passado e presente.

A história nega a ficção de sua narrativa, assumindo uma postura cientifica que tenta destituir sua proximidade junto ao matiz literário, tentando legitimar o conhecimento como verídico ao invés de simplesmente verossímil.

A luta pelo reconhecimento de sua cientificidade, fez com que a história ignorasse que qualquer ciência é construída sobre alicerces que refletem teorias apenas verossímeis.

A veracidade, só é garantida pela verossimilhança e nunca deixa de constituir uma verdade provisória, portanto, construída com a ajuda da imaginação.

Segundo Bachelard, não somos nós que imaginamos e sim as imagens que se imaginam em nós.

A imagem não tem referente além de si mesma, ela é dada e só pode ser percebida pelo ato de imaginar.

A memória narrada ou recordada pela história é, antes de tudo, uma mera representação construída pela imaginação daqueles que observaram os fatos e registraram tudo, originando as fontes.

Assim, é um exercício imaginativo do historiador que tenta construir uma representação do passado, à medida que, sendo agora, não pode ser mais aquilo que foi e não é exatamente o que passou, mas sim uma interpretação do que se imagina ter sido.

O historiador, não podendo repetir o que passou, tenta recriar o passado, em uma narrativa que, primando pela verossimilhança e cientificidade, utiliza obrigatoriamente o elemento imaginativo.

Em sentido amplo, a imaginação é a faculdade de formar imagens, através dos sentidos, reproduzindo a memória, combinando uma sucessão de quadros que imitam a realidade, montando um enredo narrativo.

Pensada filosoficamente, ao combinar os fenômenos observados, a imaginação constitui uma representação da realidade que, por meio da mistura dos fenômenos, transforma aquilo que foi observado em outra realidade que só existe na mente de quem imagina.

Em outras palavras, ao narrar expressamos aquilo que imaginamos e, para imaginar, visualizamos narrativas que foram imaginadas por outros.

Dentro desta acepção, qualquer categoria humana de pensamento não passa de uma construção imaginativa, uma criação ficcional da mente, individualizada mesmo quando partilhada e discutida, já que existe uma multiplicidade de interpretações possíveis e de estruturações narrativas.

Exatamente por este motivo, para Hayden White, a história é pura ficção, o que significa dizer que o passado que tenta reproduzir só pode ser considerada verdadeiro em um sentido metafórico.

A narrativa histórica é um discurso literário, em última análise, uma construção imaginativa de segunda-mão, à medida que apoiada nas fontes, estas também construções fictícias que representam a visão daquele que registrou os fatos.

A história seria, portanto, uma ficção de uma ficção ou uma ficção do fazer ficção, que tem como enredo fatos verossímeis, mas que não são verdadeiros, são apenas uma representação da realidade, dentre outras tantas possíveis, construída através de um exercício imaginativo.


O debate contemporâneo sobre a concepção teórica de história.

O questionamento da possibilidade de conhecer o passado, em si mesmo, conduz a duvida sobre a cientificidade da história, centro do debate contemporâneo em torno da concepção teórica de história.

Entretanto, o conceito de ciência, em si, é problemático, em vista de sua constante mutação e variedade de conclusões, conforme cada linha teórica.

Desde o século XIX, os limites da história sempre foram questionados, muitas vezes considerada mais próxima da literatura do que da ciência, mas é inegável que o positivismo e a escola metódica inauguraram a busca pela objetividade na história, fazendo os historiadores passarem a procurar sua cientificidade desde então.

Como ressaltou Ciro Flamarion Cardoso, a partir de Annales, talvez pelo seu pluralismo ou por lidar com estruturas globais, a história adquiriu um incontestável caráter cientifico.

A história, como qualquer outra ciência, passou a trabalhar não mais com acontecimentos únicos, mas com aspectos sujeitos a regularidades, como as estruturas sociais e culturais.

A primeira geração de Annales fundou um conceito de história extremamente vinculado à ciência.

Lucien Febvre definiu a história como uma ciência do homem e do passado humano, das coisas e dos conceitos.

Ao contrario, pejorativa, Poincaré afirmou que a história era uma ciência que adivinha o passado.

A despeito das limitações encontradas na sua estrutura narrativa, de fato a história é uma ciência que lida com oposições e conflitos, caracteres inerentes ao progresso cientifico, já que são os pontos de discórdia que conduzem a evolução teórica da ciência e não a concordância.

Mais ousado, Marc Bloch, valorizando a interdisciplinaridade, defendeu a idéia de que a história seria uma ciência do homem no tempo, abordando a narração e a descrição, enquanto a maioria das outras ciências tratariam apenas da classificação e análise.

Para ele, o ponto em comum entre a história e as outras ciências seria a sua finalidade última, a busca pela verdade.

Conceito extremamente filosófico, a verdade, também constituiu ponto controverso, pois é relativa, depende do observador, do anglo de visão e dos pressupostos que se somam a estes fatores, além do referencial que torna inteligível o fenômeno observado, suscitando novos questionamentos.

O historiador inglês E. H. Carr, na década de 1960, ao questionar a natureza do conhecimento histórico, chegou à conclusão de que não existe uma resposta absoluta para a definição de história ou para a validade de seu caráter cientifico, já que tudo depende da visão que cada um tem de sua própria sociedade e do tempo em que vive.

Inclusive porque é o historiador e a narrativa que ele constrói que torna ou não um fato histórico.

Foi seguindo esta mesma linha de orientação que Paul Veyne concluiu que a história possui grande proximidade com a ficção.

Distingui-se de um romance somente pelo compromisso de buscar a verdade, constituindo na realidade uma tentativa de narrar à verdade, prejudicada pelo caráter subjetivo da narrativa histórica e da interpretação das fontes.

Isto para não mencionar outros aspectos circunscritos à documentação que sustenta a análise histórica, tal como a inexatidão da narrativa ou as intenções envolvidas na produção das fontes.

Em outras palavras, como afirmou Eric Hobsbawm, o passado e a história são ferramentas utilizadas para legitimar as ações do presente, assim como as fontes têm um alcance político e ideológico, tornando a visão do passado distorcida e a narrativa histórica apenas verossímil.

Destarte, como ressaltou Jacques Le Goff, não existe sociedade sem história, o que conduz ao conceito de historicidade, o pertencer de cada individuo ao seu tempo, os aspectos comuns que todos os homens de determinada época compartilham, impossibilitando qualquer ciência de evitar extrair conclusões próprias de sua historicidade.

De modo que, se existe um paradigma em história, tal como o conceito formulado por Thomas Kuhn, circunscrito a base referencial sobre a qual um conjunto teórico é construído; este só pode ser considerado como o tempo histórico em que o historiador se circunscreve e o estilo narrativo adotado, segundo a corrente teórica e a concepção de história em que se inscreve.

O que conduz a uma reflexão envolvendo o enredo e a verdade na escrita da história.


Enredo e verdade na escrita da história.

A relatividade existente na interpretação dos fenômenos históricos, bem como os variados conjuntos teóricos que sustentam estas interpretações, leva a concluir que a narrativa histórica que se pretende científica, na realidade, talvez não passe da construção de enredos compatíveis com a verdade.

A narrativa histórica é, tanto do ponto de vista documental como historiográfico, uma verdade que reflete a verdade para quem escreveu ou descreveu.

O que remete ao conceito de escrita intransitiva de Roland Barthes, segundo o qual ‘um autor não escreve para fornecer acesso a algo independente de ambos, autor e leitor, mas escreve a si mesmo”.


Para o autor, a escrita tornar-se, “para o escritor que escreve a si mesmo, (...) os meios de visão ou compreensão, não um espelho de algo independente, mas um ato e um compromisso”.


Um conceito que nega a distância entre o escritor, seu objeto, o texto que escreve e o leitor.

Portanto, real ou não, aquilo que é narrado quase sempre é verdadeiro para quem escreve e quem lê a narrativa, dado que cada qual possui sua própria interpretação dos fenômenos narrados.

Em outras palavras, a realidade possui múltiplos níveis de entendimento e percepção.

Neste sentido, como ressaltou Paul Veyne, os fatos não existem isoladamente, só passam a existir a partir de uma mistura humana e muito pouco cientifica em que, o historiador, recorta a seu bel-prazer e estabelece conexões, compondo o que chamou de intrigas, contadas, através de uma narrativa que segue um enredo lógico e inteligível, dentre tantos outros possíveis e também legítimos.

Até porque, mesmo se fosse possível recontar o passado tal como ele foi, não seria operacional fazê-lo diante de sua amplitude, fazendo a narrativa histórica constituir sempre uma narrativa de um passado mutilado, de uma memória parcial.

O que significa dizer que, mesmo que o historiador escreva de forma literária, ele não faz literatura, como já anteriormente ressaltamos implicitamente, pois trabalha com vestígios, reminiscências, embora o componente imaginativo também esteja presente.

Esta afirmação, em si, conduz ao questionamento da base documental como fonte destes vestígios, já que seriam as fontes, justamente, a ponto que ligaria o discurso histórico com a verossimilhança e a possibilidade da construção de um discurso potencialmente verdadeiro, dentro, obviamente, de uma imensa gama de potenciais verdades paradoxais.


As fontes e a construção da memória coletiva.

A memória, tomada em um sentido amplo, teria por função armazenar informações, permitindo fixar ou reproduzir comportamentos sociais, recorrendo ao instinto e a reflexão para repetir atos mecânicos consecutivos.

Uma atividade que visa tanto organizar um novo arranjo dentro de outro contexto, como adaptar representações do que foi a novas situações.

Por este prisma, a memória individual, representada pela narrativa contida nas fontes; englobando não só os documentos escritos, como também, como ressaltou Peter Burke, a narrativa visuais, representadas por imagens, fotografias, iconografias, etc.

O que inclui a linguagem cinematográfica, obviamente.

Servindo ao desenvolvimento do sujeito, que guarda determinados fatos em sua memória para dar continuidade ao seu processo de aprendizagem e progresso intelectual.

Assim como a comunicação das informações a outros, transmitindo uma narrativa que termina se transformando conforme o entendimento do receptor da mensagem.

Este tipo de memória é curta, individualizada, correspondendo a uma perspectiva particularizada.

Bem diferente da chamada memória coletiva, um conjunto de fatos destinados a ultrapassar as gerações seguintes, contribuindo para uma visão de conjunto, voltada para o futuro.

O grande problema está fixado no fato de que a memória coletiva é construída a partir não só de visões particularizadas do passado, oferecidas pelos historiadores e seus contemporâneos, ou ainda pela oralidade, como tem também base em fontes individualizadas.

Os documentos prestam testemunho do passado, perpetuando a recordação a um ponto tal de elaboração que, como lembrou Lucien Febvre, aquilo que não foi registrado termina se perdendo.

Para Jacques Le Goff, a memória coletiva, em sua forma científica, é construída a partir de dois tipos de fontes que se confundem e interligam: os documentos e os monumentos.

Entendendo os monumentos como uma herança do passado, a partir de sua origem etimológica monumentum, remetendo a mens (mente) e memini (memória), bem como ao verbo monere que significa fazer recordar.

E os documentos como uma escolha do historiador, derivado de docere, cujo significado original de ensinar, evoluiu para sinônimo de prova, depois de sua aplicação na linguagem jurídica francesa do século XVII.

Na verdade, o conceito de documento como fonte esteve mesclado ao de monumento até o século XIX.

A história, tradicionalmente, dedica-se a memorizar os monumentos do passado, transformados em documentos pelo historiador para enfatizar a elaboração de uma memória coletiva, legitimando o presente, denotando uma intencionalidade que justifica o termo monumento aplicado a uma fonte histórica.

O positivismo, no final do século XIX, tentando reunir a ciência, a memória coletiva e a história.

Inaugurou a distinção entre documento e monumento, criando a ilusão de imparcialidade na leitura das fontes.

A escola de Annales alargou o conceito de documento, não mais apenas escrito, ampliado para abarcar tudo que pertencendo ao homem, exprimindo um patrimônio cultural da humanidade.

A distinção não passa de uma questão epistemológica, pois os documentos, sendo relatos individualizados dos fenômenos observados, registrados por sujeitos circunscritos há um tempo histórico, influenciados por um contexto social, exprimem uma intencionalidade, consciente ou inconsciente, constituindo, neste sentido, monumentos do passado.

A despeito de hoje, ao inverso do que foi até o inicio do século XX, conforme sua utilidade política, a história transformar os documentos em monumentos, selecionando fontes que se prestam a uma visão de mundo.

Isto, dentro de uma problemática que legitima conjunturas ideológicas, construindo uma narrativa oficial que pode, inclusive, entrar em choque com a memória oral de determinados grupos.

Ao optar por escolhas, recordando, voluntária ou involuntariamente as fontes, conforme uma orientação especifica, a partir de uma conjuntura social ou política, o papel do historiador na construção de uma narrativa oficial parece mais obvio do que das fontes que ele utilizou.

Os documentos, tomados em sentido amplo, também foram produzidos dentro de um contexto, muitas vezes, intencional, visando transmitir as gerações futuras uma imagem idealizada.

Eles possuem um estilo narrativo próprio e característico de uma época ou corrente literária, sendo produzidos com uma finalidade especifica, contribuindo para a construção de uma narrativa que não corresponde necessariamente à realidade.

Segundo Walter Benjamim, o mundo moderno estaria em pedaços e a história se assemelharia a um amontoado de ruínas, sendo impossível para o homem reconquistar a unidade perdida.

A salvação estaria em recolher os cacos, não para reencontrar o passado como ele foi e sim para buscar o que foi esquecido e abafado pela violência dos grupos no poder.

Deter-se sobre as ruínas seria criar outra memória que não à da história oficial.

A historiografia evoca o passado, ativando recordações regidas por uma temporalidade linear, ordenando os acontecimentos de forma que as pessoas se lembrem apenas dos fatos e eventos que interessam aos grupos que estão no poder ou que lutam para alcançá-lo, construindo modelos de comportamento que ditam as normas do conhecer e agir.

No entanto, a enredo historiográfico, em si, termina, antes de qualquer coisa, sendo influenciado pela documentação, fazendo com que o historiador, mais do que um bom interprete do passado, deva ser um critico de seu material de trabalho.

Como clamou Walter Benjamim, é função do historiador desmontar a versão da memória oficial, ao invés de legitimar ou perpetuar.

Para dar conta desta responsabilidade, o historiador deveria desconfiar dos relatos que estuda, porém, mais preocupado com o objeto e a metodologia, na maioria dos casos, esquece de estabelecer uma critica das fontes.

Entre o século XVII e XIX, a critica do documento se resumiu à comprovação de sua autenticidade, antes, nem ao menos existia esta preocupação, bastava que um argumento de autoridade sustentasse o documento.

Foi dentro deste contexto, por exemplo, que na Idade Média foram fabricados falsos diplomas, cartas, textos canônicos, etc.

Os positivistas aperfeiçoaram a critica aos documentos, contudo, foi à escola de Annales que de fato iniciou uma postura de aprofundamento critico.

Sendo um documento produto da sociedade que o fabricou, dentro do âmbito de relações de força e poder, Annales demonstrou que as fontes são também fruto de épocas sucessivas, durante as quais sustentaram a memória oficial ou, ao inverso, ficaram esquecidas.

As fontes sequer expressam a memória individual de seus autores, em última instancia, nunca relatam a verdade ou a realidade, exprimem apenas um ponto de vista, gerado pela imaginação e intencionalidade de seus produtores, não são testemunhos daquilo que aconteceu, mas do ambiente em que foram produzidas.

Diante deste panorama, caberia perguntar se seria um crime tão grande admitir que a imaginação tem um papel ativo na construção da memória histórica, já que está presente tanto nas fontes como na narrativa dos historiadores, mesmo que involuntariamente.

Através da imaginação, seria papel da história criar outra memória que não a dos poderosos, recordando o passado, a partir de uma memória imaginativa que ajudaria na compreensão mais ampla de quem somos, resgatando os vestígios que o tempo sufocou, tentando juntar e dar sentido, ainda que provisoriamente, as reminiscências.


Concluindo.

Para concluir, resta dizer que, ao longo da história da história, a própria definição teórica do que deveria ser entendido por história sofreu alterações sensíveis, algumas mais visíveis do que outras.

Todas engajadas na discussão em torno da narrativa mais adequada do passado, embora, também, não desvinculadas da leitura do passado, da natureza do trabalho do historiador, da real possibilidade de conhecer o passado através das fontes, entre outros debates relevantes.

Observando as principais correntes historiográficas, obviamente fruto, cada qual, de seu próprio tempo histórico e da maneira de enxergar o presente e o passado em cada época, podemos notar nitidamente que cada reestruturação da narrativa histórica constituiu uma critica das abordagens anteriores ou contemporâneas, envolvendo intenso debate.

Ao contrário do que poderia ser imaginado, esta discussão não chegou ao fim.

Antes, torna-se cada vez mais intensa.

Envolve hoje, por exemplo, o academicismo das narrativas presentes nas Universidades, representadas pelas teses, dissertações e artigos, com um público leitor especializado e restrito; opondo-se a narrativa jornalística dos livros de divulgação, escritos muitas vezes por não especialistas, em muitos casos se quer por historiadores, destinados a um publico mais amplo.

Terreno fartamente explorado pelos jornalistas, os historiadores do agora, as narrativas não especializadas, nem por isto deixam de estarem corretas, desde que embasadas cientificamente, são apenas visões distintas de uma mesma realidade.

O que acontece também dentro do âmbito acadêmico, onde várias teses oferecem respostas distintas para uma mesma problemática.

Assim como a leitura do passado nunca poderá ser moldada em uma forma definitiva, a discussão em torno da narrativa histórica estará sempre na pauta do dia, será sempre objeto acadêmico de discussão.

Não poderia ser diferente, para o bem da própria história é saudável que tenhamos versões diferentes para os mesmos fatos, com narrativas as mais diversas, para que o leitor, também ele sujeito da história, não fique a mercê de conclusões prontas, tendo disponíveis um arcabouço que lhe permita extrair suas próprias conclusões.

Para saber mais sobre o assunto.

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Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

2 comentários:

  1. Prof, seu texto me ajudou muito! Obrigada!

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  2. É um prazer poder contribuir com o conhecimento.
    Forte abraço.

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Esteja a vontade para debater idéias e sugerir novos temas.
Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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